O dia depois do outro. O dia depois do outro era igual a todos os outros dias. Os outros dias que seguiam, depois do dia após o outro dia, também assim seriam. Assim seguia. Lenta rotina, inconveniente, entorpecida. Máquina intravável de versos e rimas aleatórios. Busca d'um qualquer sentido, d'um qualquer caminho, d'um qualquer verão, nesse emaranhado de vários outonos, que seguiam. Por si só, seguiam. Era outro dia, antes do dia no qual desaguariam este dia e outros dias. Estava à toa. Era só um outro, homem em vias de ser. Incompleto _ dizia ele ser. Quem quer que o visse, nesse ou n'outros dias, de igual coisa julgava ele ser. _Sério dilema! Qualquer ser que não se achava em completude, em atitude de ser. Contudo, sem falar das horas, pequenas caixinhas de tempo nas quais o dia se coloca, era aquele apenas outro dia. Levanta. Segue em linha reta até o espelho ao final do corredor. Olha. Faz cara de mau. De bom _ acalma-se a pele de vidro. Disfarça indiferença. Que queria ele? Dois olhos. Uma boca. Nariz acanhado entre os três. Era só outro rapaz, em meio a tantos outros rapazes. Era só outro dia, em meio a tantos outros dias. Abominável? Só a virtude de ser normal, estranhamente normal. Temia perder-se: assim, misturado aos outros de igual credo, feição e identidade. Pergunto-me se assim sofria o dia, cor neutra que em quadro de igual tonalidade não se destaca. Digladiam-se homens caso mínima centelha lhes pareça anormalidade. Sabe-se bem. Travam-se, no entanto, iguais batalhas por medida contrária? Certamente, a escancarada normalidade ali refletida pelo espelho ao final do corredor, causava-lhe abatimento. Fígado. Rins. Pulmão. Coração. De repente até na garganta, desimpedível, fluía a amarga e estranha corrente. Rápida. Certeira. Tratou-a, de início, com gestos de quem dá à coisa devido crédito. _Era tolo? Frustrado, embrulhou-a habilmente, como que com fins de deixá-la para diferente oportunidade, em sério e breve ritual. Era apenas outro dia. Era apenas outro homem. Os dois, cada qual com a sua sentença de definhamento, seguiam. Indiferente, um com o outro. Anônimos, um para com o outro. Eu, retrato da banal normalidade, q'em dias como esse transito, observo-lhes indo e pergunto-me enfim: _ onde, por Deus, deixei meu chapéu?
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